A ideia de construção como metáfora da modernidade

Helouise Costa

A fotografia moderna no Brasil manifestou-se de maneira ampla e diversificada. Seja no fotojornalismo, na fotografia de arquitetura, no fotoclubismo, na produção documental, ou mesmo na moda e na publicidade, o que se observa são diferentes modos de responder a um mundo em franca transformação. Os nove fotógrafos reunidos nesta mostra - Ademar Manarini, Eduardo Salvatore, Gaspar Gasparian, Geraldo de Barros, Gertrudes Altschul, Paulo Pires, Marcel Giró, Mario Fiori e Thomas Farkas -, estiveram, em maior ou menor grau, vinculados ao universo dos fotoclubes e tinham como propósito investigar o potencial artístico da fotografia, libertos das amarras da profissionalização.

De origens e formações distintas, sendo alguns pertencentes a famílias de imigrantes, os fotógrafos aqui representados produziram suas imagens sob o impacto do processo de modernização que reconfigurou a face visível das grandes cidades brasileiras a partir de meados da década de 1940. Em geral, intentaram fazer da fotografia uma ferramenta capaz de dar vazão a novos modos de ver e vivenciar experiências urbanas até então inéditas. Tais intenções materializaram-se por meio da fotografia direta, mas também de experimentações, tais como fotogramas, montagens e solarizações. Enquanto alguns limitaram-se a exercícios de caráter formalista, outros buscaram alargar o entendimento da fotografia para além do repertório característico do fotoclubismo e daquilo que se convencionou como sendo próprio do fotográfico.

Em que pesem as diferenças individuais entre os fotógrafos a ideia de construção parece unir todas as imagens aqui apresentadas. O verbo “construir”, como indicam os dicionários, é sinônimo de edificar, erigir e arquitetar. Tais ações se fazem presentes de diferentes modos nessas fotografias, que resultam ora de um olhar rigoroso sobre o mundo, ora de um embate criativo com a matéria por meio das manipulações. Não por acaso a fotografia e a arquitetura foram duas manifestações do modernismo que estiveram em perfeita sintonia nos anos do pós Segunda Guerra no Brasil. Construir novas formas arquitetônicas e construir uma nova linguagem fotográfica tinham em comum o mesmo ideal de construção de um país moderno, como fica evidente na foto “Canteiro de obras”, que Thomas Farkas produziu durante a construção de Brasília, em 1958.

Pouco mais de sessenta anos depois, esta exposição apresenta a fotografia moderna brasileira, de viés fotoclubista, em diálogo com o belo espaço projetado pelo arquiteto Rino Levi, no final da década de 1950, hoje tombado pelo patrimônio municipal e estadual de São Paulo. Se a potência desse encontro nos remete a um momento especial da história do país, nos revela também que o motivo de nosso encantamento diante dessas imagens deve- se, em grande parte, ao fato de que elas guardam em si a promessa de um futuro repleto de potencialidades. E hoje, talvez mais do que nunca, essas imagens provoquem em nós a estranha nostalgia por aquilo que não fomos capazes de nos tornar.